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Cotidiano

Foto: Freepik

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Arrumar o próprio quarto, ajudar a colocar a mesa ou guardar os brinquedos podem parecer tarefas simples no cotidiano das famílias. No entanto, quando incorporadas de forma adequada à idade e ao desenvolvimento da criança, essas atividades podem ter um papel importante na formação emocional, social e cognitiva de crianças e adolescentes.

Segundo Carla Litrenta, pedagoga, educadora parental e coordenadora de relacionamentos da Escola Internacional de Alphaville - EIA, de Barueri (SP), a participação nas tarefas domésticas ajuda a construir autonomia, responsabilidade e senso de pertencimento. “A participação nas tarefas domésticas costuma trazer impactos muito positivos para o desenvolvimento. Quando a criança entende que faz parte do funcionamento da casa, participando da dinâmica familiar, ela tende a desenvolver senso de responsabilidade, autonomia e pertencimento”, afirma.

Além disso, essas atividades ajudam a desenvolver habilidades práticas importantes para o dia a dia, como organização, planejamento e cooperação. No campo socioemocional, fortalece a autoestima e a percepção de competência. “Desde os primeiros anos de vida, o que aprendemos e praticamos dentro de casa funciona como um alicerce para a forma como entendemos o mundo. É no ambiente doméstico que muitos valores e comportamentos se consolidam”, explica a educadora.

Quando as tarefas deixam de ser positivas?

Apesar dos benefícios, é importante respeitar os limites de cada fase do desenvolvimento. Excesso de cobrança ou responsabilidades desproporcionais podem gerar efeitos contrários aos desejados. “Impactos negativos costumam aparecer quando as tarefas não respeitam a idade da criança ou são acompanhadas de críticas constantes. Isso pode gerar frustração ou resistência”, afirma Carla. “É fundamental que o adulto tenha clareza sobre o que é possível esperar da criança em cada fase, evitando expectativas que ainda não podem ser atingidas.”

Tarefa não é castigo

Usar as tarefas como punição pode prejudicar a forma como a criança percebe a colaboração familiar. O ideal é que essas atividades façam parte da rotina da casa, assim como estudar ou cuidar da higiene pessoal. “Quando a tarefa doméstica é usada como castigo, existe o risco de a criança associar a colaboração a algo negativo ou injusto. A família deve apresentar as tarefas como uma forma de cooperação: todos que vivem na casa contribuem para que o ambiente funcione bem”, diz.

Responsabilidades que crescem com a idade

Na primeira infância (até os 6 anos), atividades simples como guardar brinquedos, ajudar a colocar talheres na mesa ou organizar materiais escolares já são formas de participação. Na idade escolar (dos 6 aos 12 anos), as crianças podem colaborar arrumando a cama, separando roupas ou ajudando no cuidado de animais de estimação. Já na adolescência (a partir dos 12 anos), tarefas que exigem mais planejamento podem ser incluídas na rotina, como preparar refeições simples, organizar a própria agenda de estudos ou ajudar em pequenas compras da casa.

“Assim como acontece com outras habilidades, as responsabilidades domésticas também devem evoluir conforme a criança cresce. O importante é que as responsabilidades cresçam junto com a autonomia. Isso ajuda o indivíduo a perceber que está desenvolvendo competências úteis para a vida adulta”, afirma Carla.

O exemplo vem dos adultos

O comportamento dos pais e responsáveis também influencia diretamente na forma como as crianças percebem as tarefas domésticas. “As crianças aprendem muito observando os pais. Se os adultos demonstram cooperação e uma atitude positiva em relação às tarefas, é mais provável que os filhos internalizem esse comportamento”, afirma a especialista.

Por outro lado, quando os responsáveis reclamam constantemente ou tratam as tarefas como um fardo, as crianças tendem a reproduzir a mesma percepção. “Costumo dizer que as crianças são como esponjas que absorvem tudo. O comportamento aprendido dentro de casa é o que elas tendem a reproduzir no mundo”, opina Carla.

Mesada pode ensinar educação financeira

A relação entre tarefas domésticas e recompensas financeiras também é motivo de debate em muitas famílias. Para a educadora da EIA, a mesada pode ser uma ferramenta educativa, desde que usada com equilíbrio. “A mesada pode ajudar a ensinar planejamento financeiro, mas é importante que nem todas as tarefas domésticas sejam remuneradas”, explica Jacqueline.

Segundo ela, algumas responsabilidades precisam ser compreendidas como parte natural da convivência familiar. “Se todos moram na mesma casa, todos podem contribuir para a organização e o cuidado com o espaço. Caso contrário, a criança pode desenvolver a ideia de que só vale a pena colaborar quando há recompensa financeira”, diz.

Aprender também significa errar

Outro desafio para alguns pais é lidar com a execução das tarefas, que nem sempre saem como o esperado. “Quando a criança está aprendendo algo novo, é natural que o resultado não seja perfeito. O processo envolve tentativa, os erros fazem parte do processo de aprendizagem e o aperfeiçoamento é gradual”, explica Jacqueline.

Em vez de o adulto refazer imediatamente a atividade ou criticar o resultado, o mais indicado é orientar e valorizar o esforço da criança. “É importante focar no que a criança já conseguiu realizar e mostrar que, com orientação, ela pode melhorar na próxima tentativa. Isso ajuda a desenvolver perseverança e confiança nas próprias capacidades”, afirma.

Autocuidado e responsabilidade coletiva

As tarefas domésticas também podem ensinar diferentes tipos de responsabilidade. Enquanto atividades como arrumar o próprio quarto estimulam o autocuidado, colaborar com a limpeza de espaços comuns fortalece o senso de comunidade. “O ideal é que haja equilíbrio entre tarefas individuais e coletivas. Assim, a criança aprende tanto a cuidar de si mesma quanto a contribuir para o bem-estar do grupo”, explica a educadora.

Limites também são importantes

Apesar dos benefícios, algumas responsabilidades não devem ser atribuídas às crianças. As tarefas domésticas precisam ter caráter educativo e respeitar o tempo de estudo, lazer e convivência. “Elas não devem assumir tarefas que pertencem aos adultos, como cuidados integrais com irmãos menores ou atividades potencialmente perigosas”, afirma Jacqueline.

Aprendizados que vão além da casa

Mais do que ensinar a limpar ou organizar ambientes, a participação nas tarefas domésticas pode contribuir para a formação de valores que acompanharão a criança ao longo da vida. “Quando a criança percebe que suas ações contribuem para o bem-estar da família, ela aprende cooperação, responsabilidade e respeito pelo trabalho coletivo. Esses aprendizados costumam se refletir também na escola, nas relações sociais e, futuramente, na vida profissional”, conclui Carla.

A especialista: Carla Litrenta Todaro é pedagoga, educadora parental e pós-graduação em “Psicologia Positiva: Ciência do Bem-Estar e da Autorrealização” e em “Bullying, Violência e Discriminação na Escola”. Iniciou sua carreira há quase 30 anos como professora de alfabetização nas séries iniciais, trilhando seu caminho no mundo da educação. Estudiosa das relações e do desenvolvimento humano, atualmente é coordenadora de relacionamentos da Escola Internacional de Alphaville.