A literatura é uma ferramenta poderosa de desenvolvimento e conexão humana. E o mercado editorial brasileiro passa, agora, por um momento bom: temos mais leitores, mais interesse por livros, mais vendas e, especialmente, um crescimento consistente da narrativa ficcional. Mais do que quantitativo, esse movimento revela uma mudança qualitativa na forma como as pessoas se relacionam com a leitura.
Enquanto leitor e escritor, percebo com clareza que sempre associei o hábito de ler a um processo maior, de construção de percepção sobre a vida e sobre o mundo. Cada história amplia a minha compreensão sobre comportamento humano, tomada de decisões e consequências. E ao migrar da posição de leitor para a de escritor, essa percepção se intensificou.
No desenvolvimento do meu primeiro romance, “Até que a Morte se Disfarce”, parti justamente da ideia de que nem tudo que parece natural necessariamente é. O comportamento humano pode nos surpreender. E a ficção permite explorar esses temas complexos das relações humanas, como ambição, medo e poder, sem a necessidade de respostas definitivas.
Por isso penso que incentivar novos leitores passa por tornar a experiência de leitura ainda mais acessível e relevante. E as narrativas ficcionais ocupam um espaço singular nesse cenário. Diferente de conteúdos informativos, a ficção não se limita a transmitir conhecimentos diretos. Ela constrói experiências. Ao acompanhar uma narrativa, o indivíduo não apenas entende a história, ele a vive, interpreta, questiona.
Cria-se, em cada livro, um espaço onde o leitor pode refletir por conta própria, sem ser conduzido de forma explícita. E, talvez, isso explique em parte o crescimento do mercado de ficção: em um ambiente saturado de opiniões prontas e polarizadas, a ficção devolve ao leitor o papel de interpretar.
Escrever ficção exige não apenas criatividade, afinal, mas também coerência interna, estrutura e, principalmente, respeito pela inteligência do leitor. E ler ficção é mais que prender-se ao hábito, é colocar-se disposto a refletir, descobrir e aprender.
No nosso mercado, vemos uma tendência de concentração de leitura de nomes já consolidados, muitas vezes estrangeiros, mas trago, ainda, uma provocação: é fundamental abrirmos espaço para vozes contemporâneas, especialmente as nacionais. Autores brasileiros escrevem, afinal, a partir de um repertório cultural, social e emocional muito mais próximo, o que, muitas vezes, torna a experiência ainda mais impactante. As pessoas se identificam com o que leem.
E, nesse contexto, valorizar a literatura nacional não é apenas uma questão de identidade cultural. É também uma forma de fortalecer um ecossistema criativo que depende de renovação constante. Novos autores trazem novas perspectivas, estruturas narrativas diferentes e outras formas de abordar temas que, embora universais, ganham nuances únicas em cada texto.
Incentivar a leitura, portanto, não é apenas incentivar o hábito. É criar proximidade com o leitor e incentivar a capacidade de pensar com profundidade. E nisso, a ficção, e aqui faço menção honrosa a todos os colegas autores nacionais, pode ser uma peça-chave.
*Danilo Quartiero Filho é economista, empresário, escritor e autor do livro "Até que a Morte se Disfarce".

