A recente circulação de conteúdos breves em plataformas digitais, como os chamados reels, não raramente opera como gatilho para reflexões que, embora nasçam em registros aparentemente banais, tocam em questões estruturais da vida social. Foi o que se verificou ao assistir a uma intervenção de uma psicóloga francesa (clairepetin_psychologue) acerca da crescente erosão do espaço público. Entre as indagações ali suscitadas, uma destaca-se por sua força inquietante: por que razão aqueles que demonstram maior competência ou capacidade analítica tendem a receber menor visibilidade, ao passo que discursos simplificados, quando não francamente empobrecidos, alcançam maior adesão? Tal assimetria não seria apenas um efeito colateral da dinâmica midiática contemporânea, mas o indício de uma mutação mais profunda: a emergência de uma forma difusa de ordenamento social que poderíamos, provisoriamente, denominar mediocracia.
A democracia, conforme consolidada pela tradição da teoria política moderna, define-se, em termos gerais, como o regime no qual o poder emana da maioria, seja de forma direta, seja por meio de representantes legitimamente escolhidos. Trata-se, portanto, de um modelo que, ao menos em sua formulação ideal, busca assegurar a participação ampla dos cidadãos na condução dos assuntos públicos. Não obstante, a história recente sugere um progressivo esgarçamento semântico do termo, frequentemente mobilizado para legitimar práticas que pouco guardam relação com seus fundamentos normativos. Ainda assim, a democracia permanece como horizonte organizador das instituições políticas, regulando, com maior ou menor eficácia, a gestão dos bens e serviços públicos.
É nesse ponto que se revela fecundo o retorno a uma reflexão clássica. Na célebre análise das formas de governo, feita por Platão em “A república”, delineia-se uma sequência na qual cada regime carrega em si o germe de sua própria degeneração. A aristocracia do saber, fundada no primado da razão, cede lugar à timocracia, onde a honra e o reconhecimento passam a orientar a ação política. Esta, por sua vez, degrada-se em oligarquia, regime no qual a riqueza se converte no critério central de poder, subordinando o bem comum aos interesses privados. Da tensão inerente a essa desigualdade emerge a democracia, frequentemente celebrada como realização da liberdade, já marcada por uma ambivalência constitutiva: ao afirmar a igualdade de todos, tende também a dissolver as distinções qualitativas que estruturam a vida coletiva.
É precisamente nessa ambivalência que se insinua a hipótese aqui proposta. Ao promover um nivelamento generalizado, a democracia corre o risco de não apenas ampliar a participação, mas também de enfraquecer os critérios de excelência, sejam eles intelectuais, éticos ou técnicos. Não se trata, evidentemente, de afirmar que a maioria seja, por definição, incapaz ou desprovida de discernimento, trata-se de reconhecer que, em determinadas condições históricas e midiáticas, o que se torna visível e socialmente valorizado não coincide, necessariamente, com o que é mais elaborado ou consistente. Nesse deslocamento, abre-se espaço para uma lógica de legitimação fundada não na qualidade, mas na aderência imediata, não na complexidade, mas na simplificação.
É nesse direcionamento que a noção de mediocracia pode ser mobilizada não como insulto, antes como categoria analítica. O termo “medíocre”, em sua acepção etimológica, remete ao que se situa na média, ao que não se distingue nem por excelência nem por deficiência extrema. Contudo, quando elevado à condição de princípio organizador da vida pública, esse “meio-termo” tende a converter-se em norma, desestimulando a emergência do excepcional e neutralizando a diferença qualitativa. A mediocracia, assim compreendida, não seria um regime formalmente instituído, mas uma lógica difusa de funcionamento social, na qual a visibilidade, a legitimidade e o poder passam a ser distribuídos segundo critérios de fácil assimilação e rápida circulação.
Tal dinâmica encontra terreno fértil em uma economia da atenção marcada pela velocidade, pela fragmentação e pela busca incessante por engajamento. Discursos que exigem elaboração, tempo de assimilação ou esforço interpretativo tendem a ser preteridos em favor de enunciados mais imediatos, capazes de produzir efeitos rápidos e amplamente compartilháveis. Diante dessa conjuntura, governar corre o risco de confundir-se com agradar, e a ação política passa a orientar-se menos por projetos de longo prazo do que pela necessidade de responder, de modo instantâneo, às expectativas de um público constantemente mobilizado.
Isso não significa, contudo, que a mediocracia imponha-se de fora para dentro. Ao contrário, ela se reproduz na medida em que encontra ressonância nas próprias formas de percepção e expectativa dos cidadãos. Quando a complexidade é sistematicamente evitada e o horizonte temporal reduz-se ao imediato, cria-se um ambiente no qual propostas simplificadas não apenas circulam com maior facilidade, também se tornam desejáveis. Nesse direcionamento, a mediocracia não é apenas um fenômeno político, é, antes, cultural e cognitivo.
Diante desse quadro, talvez se torne necessário revisitar a tradição filosófica não como repositório de modelos normativos a serem simplesmente aplicados, mas como instância crítica capaz de iluminar as tensões do presente. Onde a razão abdica de seu papel orientador, abre-se espaço para que o desejo pelo fácil e pelo imediato assuma o comando. E, uma vez instalado, esse regime do simplificado e do fácil tende a perpetuar-se, não por imposição explícita, antes, pela adesão silenciosa daqueles que nele reconhecem, ainda que de forma inconsciente, a medida de suas próprias expectativas.
*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

