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Opinião

Um animal essencialmente político (anthropos physei politikon zoon). É isso o homem, para Aristóteles. E a afirmativa é tão célebre quanto o imortal filósofo de Estagira. Mas vai se tornando estranha no século XXI, parecendo coisa de um maluco do passado remoto. Nas grandes cidades (polis?) pós-modernas(?) até mesmo os líderes (?) andam afirmando não serem políticos! Teriam eles, junto com os indivíduos de classe média que os apoiam e dizem odiar política, transcendido a condição humana? Ou será que, pelo contrário, caíram para abaixo dela, juntando-se aos animais irracionais?

Responder a essa questão é algo urgente, premente. É preciso ter alguma certeza a respeito da natureza do homem e do papel que nela cumpre a política. Pois se nem isso formos capazes de saber, estamos condenados a vagar a esmo, por aí, cometendo barbaridade atrás de barbaridade e nos matando mutuamente, sem saber o porquê. Se abrimos mão de tentar descobrir de onde viemos, para onde vamos e qual o sentido da vida (se, enfim, deixamos de filosofar), não podemos deixar, do mesmo quase-impune modo, de entender as bases dos relacionamentos quotidianos a que estamos submetidos, dos quais não podemos fugir tão facilmente como os ermitões da antiguidade.

Aristóteles tinha em mente a polis, a cidade, o lugar do coletivo, destino do homem, ser gregário, incapaz de viver isoladamente. Mais do que isso: ser limitado se não transcende a oikos, a casa, o lugar da família.

A oikos dá lugar ao que chamamos economia (e, por extensão equivocada, mercado) e na polis nasce a democracia. Na oikos cuida-se da sobrevivência – provisão da condição material de existênica; na polis, da vida – a aventura em aberto das relações com o outro, as coisas, o mundo. Vida que é vivida em comum, na comunidade, no ambiente amplo da sociedade, onde ninguém tem ascendência sobre ninguém por razões de sangue ou afetivas e, portanto, onde as decisões e ações se baseiam nas capacidades, em confronto, de persuadir e dissuadir, baseiam-se, em uma palavra, na política.

Tendo se mercantilizado ao inserir a troca e a divisão do trabalho (agora assalariado e não escravo, como no tempo de Aristóteles) no seu modus operandi quotidiano, essa sociedade (ocidental?), com isso, operou o milagre do fim da política, a transformação da oikos numa casa ampla, onde cabe toda a “família” humana, convivendo seus membros em harmonia, já que se tornaram capazes de fazer do próprio egoísmo uma ferramenta para enriquecer, ao mesmo tempo beneficiando o próximo (ao modo de Adam Smith)?

Não, milagres não acontecem, a não ser como exceção: a vida segue sem eles, a crença no espantoso e no anormal dando vazão ao providencial sonho de que não somos tão pouco, quase nada, mero pó de estrelas. E menos ainda se individualmente considerados, isolados do coletivo humano, de que somos parte e que dá algum sentido à nossa curta existência. A política, de fato, sem milagre, está aí, no nosso quotidiano, cada dia mais forte, onipresente. Não enxergá-la é juntar-se ao pior cego: o que não quer ver. O que aconteceu é que ela se deslocou da polis controlada pelos homens das oikos (pelas famílias aristocráticas) para a economia política, a casa a que damos o nome de mercado, o lugar onde o povo (demos), sob um pacto por uma res publica, batalha pela sobrevivência, a maioria praticamente abrindo mão da vida. Oikos moderna, agora politicamente subordinada às grandes corporações e bancos – a aristocracia que se esconde por trás da caricatura de polis a que foi reduzido o Estado contemporâneo, capturado pelas imensas dívidas públicas que os obrigam a gastar mais com juros do que com as provisões para os membros das “famílias” nacionais. Estado onde tem funcionalidade especial aquele que acha um meio de tirar para si um naco da coisa pública se propondo a dela cuidar, mas de fato aceitando migalhas para servir ao poder da casa bancária.

E assim seguimos, construindo a solidão coletiva em que estamos mergulhando cada dia mais: isolados nas nossas oikos sem famílias (o que, afinal, é isso, hoje em dia?) e nas nossas polis sem governo, presos na bolha de informações e formulações que os idiotas (em grego, o que não se envolve com a polis) construíram, no lugar da Enciclopédia, nas redes sociais.

*Valdemir Pires é economista, professor e pesquisador da Unesp/FCL-Araraquara