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Opinião

Luiz Carlos Borges da Silveira é médico e ex-ministro da Saúde

Luiz Carlos Borges da Silveira é médico e ex-ministro da Saúde Foto: Arquivo/Conexão Tocantins

Foto: Arquivo/Conexão Tocantins Luiz Carlos Borges da Silveira é médico e ex-ministro da Saúde Luiz Carlos Borges da Silveira é médico e ex-ministro da Saúde

A decisão judicial impondo jejum eleitoral de oito anos ao ex-presidente, embora totalmente previsível desde o início do processo, teve natural impacto político, especialmente nos meios bolsonaristas. Evidentemente, havia a expectativa de retorno à revanche em 2026 ou talvez o ensaio em patamares intermediários de pleitos municipais ou estaduais, notadamente no estado do Rio de Janeiro, domicílio eleitoral de Jair Bolsonaro, buscando com isso aquilo que em marketing comercial se diz ‘manter o produto em evidência’. A decisão togada muda tudo. É claro que cabem recursos, mas quase nulas são as esperanças porque serão praticamente os mesmos julgadores.

É uma tarefa para as devidas assessorias do eleitoralmente apenado. Precisam encontrar rapidamente respostas para a interrogação ‘e agora?’ Ao analista político cabe avaliar e procurar respostas ao cenário geral alcançado pelos efeitos advindos da decisão, que indiretamente afeta também o eleitorado e a população geral.

Para o cenário político, a inelegibilidade de Jair Bolsonaro até 2030 poderá, paradoxalmente, ser benéfica, assim como também para a própria direita, desde que esta saiba aproveitar a circunstância, corrigir rumos e abrir oportunidades a outros nomes, outras lideranças mais preparadas que hajam aprendido com os erros cometidos. Bolsonaro mostrou-se despreparado e afoito. Teve quatro anos de poder para colocar a direita em posição mais estável, mas desperdiçou a chance.

O primeiro reflexo positivo com a ausência do ex-presidente é a possibilidade de não acontecer mais um pleito totalmente polarizado. Muito provavelmente, a disputa em 2026 não ficará limitada a dois nomes polarizando tudo, direita contra esquerda, Lula x Bolsonaro e os mesmos temas e acusações recíprocas ocupando o debate, sem a discussão de ideias e propostas que efetivamente interessam ao Brasil e aos brasileiros.

A polarização eleitoral prejudica o processo, restringe a melhor possibilidade de escolha ao eleitor, obstrui o debate, suprime a discussão de propostas, sufoca o diálogo. Por isso, a polarização prejudica a democracia que preconiza a convivência dos contrários amplo campo para todas as ideologias e correntes de pensamento além de – o mais importante – oferecer opções ao eleitor, que é quem decide.

Felizmente, certamente não teremos na próxima eleição o processo girando em torno de apenas dois candidatos com chances de ganhar e, cada um, carregando porcentuais de rejeição muito superiores aos de preferência eleitoral. Polarização é a gangorra eleitoral, apenas dois protagonistas. Nas urnas, os números revelam o placar do  maniqueismo:  o eleitor vota em Lula contra Bolsonaro ou em Bolsonaro contra Lula. Não vota em projetos, em inovação, em mudanças, em políticas públicas. Isso não contribui para crescimento da política em bases sólidas, vira uma brincadeira de políticos. Esse é o retorno que nos dá a polarização eleitoral.

Lembra um especialista que o significado estrito de polarização é simplesmente a divisão de uma sociedade em dois polos a respeito de um determinado tema. Porém, essa palavra tem sido usada de um modo mais negativo: polarização é como chamamos a disputa entre dois grupos que se fecham em suas convicções e não estão dispostos ao diálogo.

A quebra desse status quo pode ocorrer na próxima eleição presidencial, se a condenação for mantida (e ao que tudo indica será). Bolsonaro por força da corte e Lula provavelmente por força da idade devem ser comandantes, estrategistas e apoiadores, mas não protagonistas diretos no campo da luta política. Isso será extremamente salutar para a política e, tomara, para a administração do País...

Em oito anos muita coisa pode mudar e para a política brasileira e forças partidárias e ideológicas espera-se que já seja notada alguma mudança nas eleições de 2026. A direita, ou a centro-direita, tem lideranças emergentes que podem ser trabalhadas e não atrapalhadas. Na esquerda a pressão será para que o atual governo faça uma administração capaz de apresentar também um nome novo. E que as demais correntes partidárias entrem na luta com espírito de vencedores, não apenas caudatários a reboque de conhecidas coligações e alianças em busca de cargos. Apesar da fragmentação e descaracterização da maioria dos partidos que orbitam na atração dos maiores, ainda há possibilidade de mudanças positivas.

O sonho do visionário da boa política e da autêntica democracia é que na próxima – e nas demais eleições - todos os partidos se apresentem no primeiro turno com candidato próprio e ampliem o debate, qualificando para o segundo turno aqueles dois que mais preferência eleitoral conquistarem por suas propostas. Aí sim, que se façam alianças e coligações em torno de ideias, de propostas, de ideologias, de identidade programática e não por influência do poderio econômico partidário.

Talvez tudo isso esteja próximo de deixar de ser apenas um sonho...

*Luiz Carlos Borges da Silveira é médico, ex-ministro da Saúde, ex-secretário de Ciência e Tecnologia do Governo do Estado do Tocantins e ex-secretário do Desenvolvimento Econômico, Ciência e Emprego do Município de Palmas-TO.