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Polí­tica

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político.

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político. Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político.

Sempre que um presidente dos Estados Unidos decide agir de forma agressiva na política externa, surge a mesma pergunta na América Latina: "Isso vai respingar na nossa política?". No caso de Donald Trump, a dúvida ganha força porque ele costuma tratar assuntos externos como parte da disputa interna dele — e porque sabe usar conflitos como arma de comunicação.

Mas é importante entender o que significa "interferir" numa eleição hoje. Em geral, não é "mexer na urna". A interferência moderna é mais indireta e, por isso, mais difícil de provar. Ela acontece principalmente por quatro caminhos: discurso, redes sociais, economia e diplomacia.

1) A interferência pelo discurso: criar clima de desconfiança

Um jeito clássico de influenciar é colocar dúvida na cabeça das pessoas. Não precisa apresentar prova; basta repetir frases que enfraquecem a confiança: "o sistema é manipulado", "as instituições são parciais", "a eleição não é limpa". Isso cria um ambiente de suspeita permanente. O efeito é simples: se o eleitor desconfia do processo, ele fica mais irritado, mais radicalizado, mais vulnerável a boatos.

Trump já usou essa estratégia nos EUA. E, quando esse tipo de narrativa é exportado, ela encontra terreno fértil em países polarizados, como o Brasil.

2) A interferência pelas redes: empurrar conteúdo que inflama

O segundo caminho são as plataformas digitais. Hoje, muitas "batalhas eleitorais" acontecem em redes que não são brasileiras — as regras, os algoritmos e as decisões de alcance são definidos lá fora. E isso vira combustível político aqui dentro.

Em ano eleitoral, qualquer medida contra desinformação pode ser transformada em propaganda: se uma conta é derrubada, vira "censura"; se há regras para propaganda online, vira "perseguição". E as redes amplificam o conflito porque polêmica dá clique, dá audiência, dá engajamento.

A interferência, nesse caso, não precisa vir diretamente de Trump. Pode vir de grupos internacionais, influenciadores alinhados, páginas, correntes, perfis falsos e até conteúdos feitos por inteligência artificial. O objetivo é o mesmo: aumentar o barulho, dividir o país, empurrar as pessoas para os extremos.

3) A interferência pela economia: provocar instabilidade

Economia também decide eleição. E como decide...No Brasil, a maior massa de eleitores vota em quem lhe garante o dinheirinho da feira e da farmácia. Costumo me referir a essa hipótese como Equação BO+BA+CO+BA (Bolso, Barriga Satisfeita, Coração Agradecido, Cabeça racional). Em outras palavras, candidatos que proporcionem o bolso cheio, o dinheirinho da feira, terão melhores condições de conquistar o eleitorado. A economia, ao lado da segurança pública, dará o tom maior da campanha. Ao contrário, qualquer choque — dólar subindo, juros altos, crédito caro, exportações ameaçadas — muda o humor social. E a política logo transforma isso em narrativa: "o governo não presta" ou "o país está sendo atacado". Em ambos os casos, a tensão externa vira munição interna.

Medidas econômicas dos EUA, mesmo quando têm justificativas formais, podem gerar insegurança em mercados e empresas. E insegurança é "matéria-prima" para campanhas: aumenta medo, raiva e sensação de descontrole.

4) A interferência diplomática: sinais e recados calculados

Há também a diplomacia simbólica: quem Washington recebe, quem ignora, que recado manda, que tom usa, que alianças prefere na região. Isso influencia a política local porque vira argumento de campanha. Um candidato pode se vender como "o que aproxima o Brasil dos EUA", outro como "o que enfrenta e defende a soberania". O eleitor, então, passa a votar também pela leitura que faz do cenário internacional.

Há limites? Sim. E isso é essencial.

Interferência não é destino. O Brasil tem instituições, Justiça Eleitoral, imprensa, sociedade civil e mecanismos de fiscalização. Além disso, interferência aberta pode ter efeito contrário: quando o eleitor sente ingerência externa, cresce a reação nacionalista.

E existe um ponto decisivo: nenhuma interferência funciona sem ponte interna. Para a influência externa virar voto, precisa haver gente aqui dentro espalhando, financiando, convertendo ruído em mobilização política. Sem esse "canal doméstico", a interferência fica fraca.

Então, Trump vai interferir?

Mesmo sabendo que Trump é imprevisível e capaz de invadir pedaços de seu quintal – termo usado pelo Secretário de Defesa dos EUA ao se referir à América do Sul – o mais provável é que, se houver interferência, ela seja indireta: narrativa, redes, pressão econômica e sinais diplomáticos. Não é uma história de "controle da urna", mas de "controle do clima". A eleição se disputa também pelo ambiente emocional do país: confiança, medo, ressentimento, esperança.

O antídoto não é histeria. É organização democrática: transparência na propaganda digital, rastreio de financiamento, resposta rápida contra mentiras, educação midiática e compromisso das lideranças com regras do jogo. Em 2026, soberania não se defende só com discurso. Defende-se com instituições firmes e uma opinião pública atenta.

*Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político.