Em uma novela medieval intitulada “Baudolino”, o semioticista italiano Umberto Eco, por meio de uma série de artifícios narrativos, demonstra como as personagens de sua trama estão infensas às mentiras, quando essas são bem “embrulhadas” em suas próprias convicções e necessidades. Baudolino, que é o protagonista desta homônima, possui uma criatividade muito conveniente às circunstâncias pelas quais passa, de maneira a ser um aparente alívio a todos que lhe seguem as ideias, porém, a praticamente todos traz certa “desgraça”, inclusive a si próprio. Com as informações “cruas” não se pretende contar mais do que o necessário e, ao mesmo tempo, convidar o leitor à leitura deleitosa deste livro que apresenta uma velha retórica que sempre aparece; até possui data e horário marcado para vir a público como tal.
Em Eclesiastes (1:9), diz-se: “O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol”, explicando que a novidade, em seu conjunto de achados, encontra-se disponível e, mais do que isso, tende-se à repetição constante. Shakespeare, entendendo isso, incorpora o trecho bíblico não apenas em soneto, principalmente, nas tragédias de seu teatro, que não são novidades, contudo, são recorrências. Entretanto, para se descobrir, é necessário o recobrimento; para se tirar da escuridão, carece-se da luz; para entender, é imperioso compreender e, posteriormente, lembrar, ora por um meio, ora por outro, do contrário, entender e esquecer equivale a não ter entendido. Baudolino, com suas falácias reiteradas vez, demonstra o que se afirma no Eclesiastes sobre o novo e a repetição, aqui, de outra maneira, faz-se quase o mesmo.
Com a chegada das eleições, a velha retórica do salvamento da população passa a vigorar. Todo candidato volta-se para a conveniência de que o país, como sociedade organizada, carece profundamente de educação, de segurança e de saúde, as três de qualidades. É como se cada ciclo eleitoral fosse um palco montado para a mesma peça, apenas com atores trocados, quando esses não os mesmos. As palavras repetem-se, as cores dos panfletos são alternadas, mas a melodia é estranhamente familiar: a promessa de um futuro reinventado, sempre condicionado ao voto. O eleitor, imerso em suas próprias convicções e anseios, pela segurança que não chega, pela escola que não educa, pelo hospital que não cura, torna-se, tal qual as personagens de Eco, receptivo ao “embrulho” bem-feito. A mentira, ou antes, a meia-verdade grandiloquente, é aceita não por ingenuidade, antes, porque ela sussurra aquilo que já se deseja ouvir. O candidato, um Baudolino de palanque, tece suas narrativas com a criatividade conveniente do momento, apresentando-se como o alívio iminente para os males coletivos. No calor da campanha, poucos param para indagar se esse caminho, tão sedutoramente anunciado, não levará, como no romance, a novas desgraças, inclusive para o próprio proponente, perdido em suas próprias ficções de poder.
Aqui se revela a profundidade do ensinamento do Eclesiastes: “nada há de novo sob o sol”. A retórica salvacionista não é invenção moderna; é um arquétipo reaproveitado, uma ferramenta antiga polida para novos contextos. Shakespeare a dramatizou no poder cego dos reis e na volubilidade das multidões. A cada eleição, nós, coletivamente, encenamos uma tragédia shakespeariana em forma cívica, na qual a ânsia por mudança nos faz abraçar fantasmas de soluções passadas, vestidos com roupagens de novidade. Compreender esse mecanismo cíclico é o primeiro passo para quebrá-lo; lembrar-se das promessas não cumpridas de ontem é a luz necessária para não tropeçar nas mesmas sombras amanhã.
Diante do espetáculo retórico que se repete, a reflexão impõe-se como antídoto. Baudolino ensina que a sedução da narrativa bem urdida, com embrulhos convenientes, pode ofuscar a busca pela verdade, transformando o discurso político em artefato de ilusão, não de alicerce. Do Eclesiastes, colhe-se a lição de que a repetição não é sinônimo de fatalidade, mas, frequentemente, espelho de uma memória frágil que se deixa encantar pela mesma melodia, ano após ano. Cabe ao cidadão, então, ultrapassar a condição de plateia passiva. Exigir dos que buscam o poder não o verso vago de um amanhã hipotético, mas a frase clara que descreve o hoje e que honra o ontem. Só assim se pode desarmar o mecanismo cíclico do esquecimento. Pois compreender e depois abandonar o entendido ao vazio do dia seguinte equivale a cultivar, no próprio solo cívico, as sementes da próxima decepção. E o palco, sempre à espera, estará pronto para mais um ato da mesma peça, com seus atores renovados e seu texto, imutavelmente, antigo, a “boa” e velha retórica.
*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

