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Foto: Divulgação

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A sustentabilidade deixou de ocupar apenas o campo do discurso institucional para se consolidar como variável econômica central na competitividade global. Em um cenário marcado por mudanças climáticas, pressão regulatória, exigência de rastreabilidade e transformação dos mercados, o agronegócio brasileiro passou a enfrentar um desafio decisivo: produzir mais, com maior eficiência territorial, menor impacto ambiental e maior governança. Nesse contexto, clima, ESG e inovação tecnológica se conectam diretamente à segurança alimentar, à estabilidade econômica e à capacidade de inserção internacional do Brasil.

Entre os conceitos mais relevantes desse debate está o yield gap, expressão utilizada para definir a [diferença entre o potencial produtivo de uma área agrícola e a produtividade efetivamente alcançada em campo]. Em termos práticos, representa o quanto ainda pode ser produzido em determinada área sem necessidade imediata de expansão territorial. No Brasil, essa métrica é particularmente estratégica. [Em muitas regiões agrícolas, parte do ganho produtivo não depende da abertura de novas áreas, mas da melhoria de manejo, irrigação inteligente, fertilidade do solo, genética vegetal, monitoramento climático, mecanização e agricultura de precisão. Reduzir o yield gap significa elevar eficiência e produtividade preservando ativos ambientais].

Esse conceito tem forte relação com a agenda climática. A expansão agrícola baseada apenas em abertura territorial amplia pressão sobre florestas, recursos hídricos e ecossistemas sensíveis. Já a redução do yield gap permite crescimento produtivo com uso mais racional da terra, favorecendo modelos de intensificação sustentável. No caso brasileiro, isso se conecta diretamente a cadeias como soja, milho, algodão, pecuária e cana-de-açúcar, em que ganhos de produtividade podem reduzir emissões indiretas, minimizar riscos de desmatamento e ampliar competitividade internacional. Trata-se de uma mudança de lógica: o crescimento deixa de ser apenas horizontal e passa a ser técnico, inteligente e territorialmente eficiente.

Sob a ótica ESG, o yield gap também se converte em indicador de governança e maturidade empresarial. No eixo ambiental, reforça práticas como manejo sustentável do solo, uso racional da água, recuperação de áreas degradadas e redução de emissões. No eixo social, contribui para estabilidade econômica local, segurança alimentar e redução de conflitos associados à expansão territorial desordenada. Já no eixo de governança, exige rastreabilidade, dados confiáveis, compliance ambiental e planejamento estratégico de longo prazo. Nesse processo, ferramentas como sensoriamento remoto, inteligência artificial, modelagem climática e integração de bases como CAR, SIGEF, MapBiomas, DETER e sistemas hidrológicos tornam-se essenciais para decisões mais precisas.

Para o agronegócio brasileiro - especialmente em regiões de forte expansão agrícola e alta dependência hídrica, leia-se MATOPIBA - a grande vantagem competitiva do futuro estará na capacidade de reduzir ineficiências produtivas sem ampliar passivos ambientais. O yield gap deixa claro que a sustentabilidade não é obstáculo ao crescimento; ao contrário, pode ser a principal via para combinar produtividade, segurança jurídica, preservação territorial e inserção em mercados cada vez mais exigentes. O agro do futuro será menos definido pela extensão de terras ocupadas e mais pela inteligência aplicada sobre cada hectare produzido.

*Wellington Magalhães é Juiz de Direito, Diretor Adjunto da Escola Superior da Magistratura Tocantinense (ESMAT) e Coordenador do Centro Judiciário de Solução de Conflitos Ambientais e Fundiários (CEJUSCAF). Possui Mestrado em Direito Constitucional pela Universidade de Coimbra, em Portugal, e Doutorado em Desenvolvimento Regional pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), com ênfase em políticas públicas e efetividade da prestação jurisdicional. Atualmente, cursa MBA em ESG e Negócios Sustentáveis pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP) e desenvolve pesquisa aplicada integrada ao pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), voltada à utilização da inteligência artificial no apoio à análise e ao julgamento de ações judiciais ambientais.