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Opinião

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

A sociedade contemporânea vive imersa em narrativas. Seja na tela do cinema, na playlist do dia a dia, no episódio da série que se maratona ou nas páginas de um romance, a cultura pop e as produções artísticas são muito mais que entretenimento: constituem o solo invisível onde germinam ideias, valores e comportamentos. Raramente, porém, questiona-se até que ponto esse solo é fértil por acaso ou se é arado por mãos intencionais.

A força da cultura para produzir consenso é tão antiga quanto a própria humanidade, mas nunca foi tão sutil e poderosa como na era das plataformas de streaming e do alcance viral. Um exemplo didático é a série Game of Thrones. Em seus oito anos de sucesso global, ela não apenas entreteve, normalizou uma visão de mundo em que o poder é essencialmente cínico, a política é um jogo de traições e a virtude individual raramente sobrevive. Sem que o público percebesse, o bordão “you win or you die” passou a colorir conversas sobre liderança e ética no trabalho, nos relacionamentos e até na política real. Não que a série tenha “criado” o cinismo político, ela o refinou, tornou-o esteticamente atraente e, ao repeti-lo em milhões de lares, ajudou a consolidar um senso comum de que “sempre foi assim”.

No campo dos valores sociais, poucas produções foram tão didáticas quanto o filme Pantera Negra (2018). Mais do que um blockbuster da Marvel, a obra serviu como um divisor de águas no imaginário sobre representatividade negra, tecnologia e soberania cultural. O filme não apenas quebrou recordes de bilheteria; criou um consenso momentâneo de que narrativas protagonizadas por pessoas negras, com equipes majoritariamente negras e que tratam de temas como diáspora e identidade, eram não apenas viáveis comercialmente, eram desejadas pelo público. Em poucos meses, o que era visto como “nicho” tornou-se “mainstream”. O consenso não emergiu espontaneamente; foi construído por um trabalho de marketing, posicionamento da indústria e uma demanda social que encontrou naquele filme seu símbolo máximo.

A música, por sua vez, é talvez a ferramenta mais capilar de formação de consenso comportamental. Observe-se o fenômeno do funk ostentação no Brasil dos anos 2010. Canções que exaltavam bens de consumo, carros de luxo e uma estética de ascensão social rápida não apenas refletiam um desejo de classes periféricas; ajudaram a reconfigurar o imaginário do “sucesso” para uma geração inteira, influenciando desde a maneira de vestir até a escolha profissional. De forma semelhante, o sertanejo universitário consolidou um consenso sobre relacionamentos: a romantização da traição, o sofrência como estilo de vida e a idealização do “sofrer por amor” como virtude. Não que os jovens não sofressem por amor antes; é que a indústria musical encontrou precisamente ali um nicho lucrativo e retroalimentou esse comportamento, transformando um sentimento privado em performance pública e identidade coletiva.

Os livros, embora menos imediatos, possuem o poder de “plantar” consensos duradouros. “1984”, de George Orwell (publicado em 1949), por exemplo, não é apenas um romance; tornou-se o principal código cultural para discutir vigilância estatal e manipulação da verdade. Quando hoje se fala em “big brother”, “novilíngua” e “duplipensar”, evoca-se um universo inteiro de ideias que foi compactado por uma obra literária. O consenso sobre os perigos do totalitarismo, no Ocidente, foi fortemente moldado por essa e outras narrativas, o que mostra que a cultura pode antecipar debates políticos e fixar posições éticas por gerações.

Diante desses exemplos, a pergunta que se impõe não é se a cultura produz consenso, isso ela faz, inevitavelmente. A questão crucial é: esse processo ocorre de forma automática, como uma corrente orgânica que brota do povo e reflete sua essência, ou ele é direcionado por interesses econômicos, ideológicos e estratégicos de quem detém os meios de produção e distribuição cultural?

A resposta, claro, não é binária. Há uma espontaneidade genuína na maneira como públicos apropriam-se e ressignificam obras, o que se chama de “cultura de base”. Contudo, ignorar o direcionamento é ingênuo. Os algoritmos das plataformas, os investimentos bilionários em franquias, as campanhas de relações públicas e até os financiamentos estatais para determinadas narrativas mostram que, embora não se possa controlar totalmente o significado que o público extrai de uma obra, é perfeitamente possível inclinar o tabuleiro. Indústrias culturais sabem que, ao repetir suficientemente um tipo de história, ela se torna “natural”, inquestionável.

Portanto, ao consumir um filme, uma série ou uma música que parece “apenas diversão”, talvez valha a pena desconfiar: trata-se de um espelho que reflete o que já se é, ou de um farol que aponta para onde se quer que se queira ir? A força da cultura está exatamente em fazer com que se esqueça que há uma escolha por trás do consenso.

*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).