Desde que o psicólogo e biólogo suíço Jean Piaget se dedicou a observar e estudar o desenvolvimento cognitivo da criança e publicou suas teorias na década de 1920, tudo mudou.
A criança que era vista e entendida - desde a idade média - como um "adulto em miniatura" ganhava um status próprio e o direito a um tratamento apropriado, adequado às suas necessidades e capacidades.
O adulto em miniatura dos séculos anteriores participava das mesmas atividades, usava os mesmos tipos de roupas e era inserido no mundo adulto, quase que sem restrições desde cedo. Mark Twain navega de forma brilhante esse mundo do adulto em miniatura nos personagens de Tom Sawer e Huckleberry Finn em suas aventuras ao longo do Rio Mississipi.
Nos últimos dias, o youtuber Felca escancarou nas redes o fenômeno da adultização infantil. Estamos falando de crianças expostas a comportamentos, imagens e sexualização que não é compatível com seu desenvolvimento físico, cognitivo e emocional para render likes, seguidores e dinheiro.
E por que essa exposição é um problema?
Porque estamos retirando da criança algo que ela jamais será capaz de recuperar: a própria infância.
A infância é o período da vida em que a personalidade começa a se formar e Piaget detalhou com precisão cada uma das fases, explicando como a criança interage com o meio e quais habilidades desenvolve.
O trabalho da criança é brincar, experimentar e errar.
Expor a criança a adultização, ainda mais publicamente nas mídias sociais, a leva a interiorizar que seu valor está condicionado à opinião alheia, ao número de likes nos perfis ou o dinheiro obtido a partir da exposição da sua imagem.
É possível que esta criança se tornará um adulto que passará o resto de sua vida buscando a aprovação dos outros. Fará de tudo para agradar, mesmo que isso a faça extremamente infeliz.
Segundo Alfred Adler, a criança precisa sentir e saber - sem sombra de dúvida - que é amada por seus pais sem nenhuma condição e que nada do que ela venha a fazer poderá abalar ou diminuir esse amor.
Ao invés de desenvolver empatia, confiança e senso de comunidade - valores básicos de acordo com Adler para pertencer à sociedade - ela cresce acreditando que precisa competir por atenção. Sintomas tais como ansiedade, insegurança e baixa autoestima talvez se tornem seus companheiros inseparáveis.
Todos os avanços obtidos pelo profundo trabalho da vida de Piaget na compreensão do universo infantil estão sendo rapidamente substituídos por breves momentos em plataformas utilizadas para estimular o desejo nas suas formas mais mesquinhas e a inveja.
A vitrine das mídias sociais nos levou de volta ao período obscuro do conhecimento em que a criança era vista como um adulto em miniatura.
*Yafit Laniado é psicanalista e hipnoterapeuta, criadora da Relacionamentoria, consultoria especializada no relacionamento entre pais e filhos.