Conexão Tocantins - O Brasil que se encontra aqui é visto pelo mundo
Saúde

Foto: Freepik

Foto: Freepik

Um dos principais desafios das entidades representativas da saúde é dialogar com as secretarias municipais visando resguardar a alocação de servidores que há anos trabalham para manter estabilidade nas unidades de atendimento ao público. Na visão do presidente Sindicato dos Farmacêuticos do Tocantins (Sindifato), Renato Soares Pires Melo, é crescente no Estado a tomada de decisões sem que as categorias sejam consultadas, surtindo em prejuízos à continuidade do cuidado e à relação de confiança entre a comunidade e os profissionais. 

O representante ressalta que a transferência de profissionais especializados e com laços de confiança estabelecidos com os pacientes, sem a garantia de uma substituição adequada, pode comprometer tratamentos de longo prazo e serviços essenciais. Ele cita alguns casos recentes de Palmas, onde alguns servidores de carreira foram removidos pela Secretaria Municipal de Saúde (Semus), sem aviso prévio, para outras unidades: 

Programa de Tabagismo: Farmacêutica, responsável pelo programa de tabagismo e que acompanha há anos cerca de 90% das pessoas em tratamento contra a doença na capital, foi transferida para outro ponto de trabalho. A profissional, segundo Soares, se recusou a largar os pacientes. "Não posso largar esses pacientes aqui”, enfatizou a profissional ao presidente Renato. 

​Núcleo de Assistência Henfil (HIV/AIDS): Farmacêutica com mais de 10 anos de atuação, que mantinha vínculo de confiança com pacientes de HIV/AIDS – um dos pilares do tratamento –, foi removida. "Pelo tempo dedicado àquele núcleo, os pacientes já sabem quem é, já conversam, já tem uma confiança na pessoa, e de repente troca o profissional. O paciente quando abre o consultório e se depara com uma nova cara ele se fecha totalmente e às vezes abandona o tratamento", criticou Renato. 

Central de Abastecimento Farmacêutico: Dois farmacêuticos com mais de uma década de experiência na logística de medicamentos, o "coração" da assistência farmacêutica, foram transferidos. De acordo com o Sindfato, no lugar deles foi designada profissional recém-aprovada em concurso, sem a experiência necessária para gerir a complexidade da distribuição de medicamentos para todo o município. "Colocaram ela sozinha para gerir toda essa parte da estrutura. Este caso parece que já foi conversado com o superintendente e eles vão retornar com os antigos profissionais", informou Soares. 

Além dos farmacêuticos, o presidente do Sindifato também citou o caso de uma enfermeira com 18 anos de experiência em Unidade de Pronto Atendimento (UPA Norte) que foi remanejada para uma sala de vacinação localizada no Taquari, ignorando sua expertise na área de urgência e emergência. "Não é nenhum demérito fazer vacina, mas não se pega um profissional que tem 18 anos de unidade de pronto atendimento, que conhece tudo daquela unidade, toda a rotina daquela unidade, conhece os pacientes, conhece toda a equipe de saúde, de ambulância, tudo, conhece todos os fluxos, você não pega uma pessoa dessa, toda especializada, e manda para uma sala de vacina", criticou o representante da categoria. 

Foto: Raiza Milhomem/Secom Palmas 

Lado Humano

O Sindifato analisa que decisões unilaterais costumam ignorar o lado humano. "A pessoa acorda no outro dia sabendo por terceiros que não trabalha mais naquele lugar". 

Segundo ele, os detalhes fazem toda a diferença. "Tem uma farmacêutica que sai aqui da Teotônio Segurado, que é onde fica o Henfil, e vai para o Taquari. Ou seja, que hora que ela vai ter que sair de casa, se ela tem outro compromisso, outro emprego, se tem que levar criança para a escola ou não. Esses detalhes são muito importantes para a vida do servidor. Afinal de contas, o servidor vai continuar aqui e a gestão vai continuar no máximo oito anos - em caso de reeleição", avaliou Renato. 

Falta de diálogo e a terceirização

​O Sindifato reforça que a questão não é a remoção em si, mas a maneira como ela é feita. "Não há diálogo e não há tempo para nos prepararmos para a nova realidade," disse Soares. 

​Renato Soares expressa a preocupação de que as decisões direcionem à terceirização da saúde pública, um movimento - segundo ele - já observado em outras áreas como exames laboratoriais e urgência e emergência. "Hoje a Upa Norte conta 74 médicos e apenas sete são efetivos, concursados, e o restante são terceirizados, pessoas jurídicas contratados para o trabalho. O município está terceirizando a saúde e agora está terceirizando as equipes de saúde da família. Para a gente isso é um absurdo completo”, reclamou.

​Reunião para esclarecimentos

O Conselho Municipal de Saúde de Palmas convocou reunião extraordinária para esta sexta-feira, 29 de agosto, na sede da Superintendência Estadual do Ministério da Saúde. A Semus foi acionada para prestar esclarecimentos sobre a carência de recursos humanos e as recentes ações. 

O presidente do Sindifato terá espaço de fala. “Não são apontamentos vazios. A categoria é unanime: o problema não é a gente ser mudado de setor, ir para outro lugar. O problema é que não há diálogo e não há tempo para nos prepararmos para a nova realidade, para readequações, de pelo menos um mês”.