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Opinião

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

A cidade, essa criação suprema do homo faber, jamais foi apenas um aglomerado de pedra, asfalto e cifras. Ela é, antes de tudo, um artefato cognitivo, um vasto e complexo símbolo exteriorizado que, em retorno, remodela a própria interioridade da mente que a concebeu. A urbanização, fenômeno distintivo da modernidade e da pós-modernidade, não é um mero pano de fundo para a vida pensante; é um agente ativo, um interlocutor silencioso e onipresente que condiciona, desafia e redefine os processos da cognição humana. Examinar essa relação é mergulhar numa dialética entre o espaço objetivo e o pensamento subjetivo.

Em primeiro plano, a cidade opera como uma prótese cognitiva massiva. Ela externaliza funções memoriais e executivas que, em contextos não-urbanos, caberiam integralmente ao indivíduo. A memória de caminhos, por exemplo, transfere-se para a sinalização, os mapas digitais e a própria lógica (ou ilógica) da malha viária. A memória cultural e histórica materializa-se em monumentos, topônimos e na arquitetura que narra, em camadas geológicas de estilos, a passagem do tempo. O cidadão, assim, liberta parte de sua capacidade mental para outros fins, porém, concomitantemente, delega fragmentos de sua autonomia perceptiva à arquitetura da urbe. A cognição torna-se, em certa medida, uma cognição em rede, mediada e filtrada pelo sistema urbano. O exemplo paradigmático é o relógio público, que sincronizou a consciência coletiva do tempo, substituindo os ritmos orgânicos da natureza pelos intervalos abstratos e rígidos da produtividade.

Contudo, essa parceria possui seu preço, e aqui adentra-se o território da sobrecarga sensorial e da atenção fragmentada. A psicologia urbana, desde Georg Simmel e seu clássico ensaio A metrópole e a vida mental, diagnosticou o “estilo de vida nervoso” imposto pela cidade. O bombardeamento de estímulos, anúncios luminescentes, tráfego caótico, multidões anônimas, sonoridades discordantes, exige um constante estado de vigilância e filtragem. A mente desenvolve uma “atitude blasé”, um escudo intelectual de indiferença, como estratégia de sobrevivência. A cognição profunda, contemplativa, aquela que exige linearidade e imersão, luta para encontrar abrigo no turbilhão. A leitura de um texto complexo no vagão de um metrô lotado é uma batalha épica contra a interferência ambiental, que dirá em um ónibus cheio. A cidade, nesse aspecto, pode favorecer uma cognição milimétrica e reativa, em detrimento da cognição contemplativa e sintética.

Todavia, seria um reducionismo melancólico ver apenas patologia nesse processo. A urbanização, ao forçar o encontro com a diversidade radical de ideias, de rostos, de comportamentos, é também o grande caldeirão da cognição social e criativa. As cidades-Estado da Grécia antiga, as praças das cidades medievais, os cafés das capitais iluministas, os laboratórios das metrópoles contemporâneas: todos são testemunhos de que a densidade e o atrito sociais catalisam a inovação intelectual e cultural. A cognição, nesse cadinho, torna-se dialógica, polifônica. Ela aprende a lidar com a contradição, a negociar significados, a pensar a partir do ponto de vista da auteridade. A genialidade de um Da Vinci ou de um Einstein é inconcebível fora do ecossistema de ideias que uma Florença ou uma Zurique/Berna ofereciam. A cidade, em sua melhor expressão, é uma mente coletiva em ação, na qual o pensamento circula, colide e recombinam-se nas ruas, nos mercados e nas universidades.

O desafio filosófico contemporâneo reside justamente no tipo de cognição que nossas novas formas de urbanização estão a moldar. A “cidade inteligente” (smart city), com sua promessa de eficiência total através de sensores e algoritmos, arrisca-se a criar uma cognição excessivamente instrumental e pré-formatada. Por antecipar e direcionar todos os desejos e movimentos, ela pode atrofiar a capacidade de errar, de se perder, de descobrir o inesperado, fontes cruciais de insight e criatividade. A cognição urbana do futuro poderá ser uma cognição de input e output otimizados, mas pobre em serendipidade e em experiência autêntica.

Portanto, a urbanização não é neutra. Ela educa os sentidos, formata a atenção, molda a memória e estrutura o raciocínio. Entre a prótese libertadora e a sobrecarga paralisante, entre a estimulação criativa e a padronização algorítmica, trava-se a batalha pelo perfil cognitivo do homem contemporâneo. Cabe aos contemporâneos, talvez, aspirar a um urbanismo que seja não apenas inteligente, e sim sábio: que saiba criar nichos de silêncio no ruído, espaços de vagar na pressa, e encontros genuínos no anonimato. Pois, ao fim e ao cabo, a cidade que é construída é espelho e moldador do próprio pensamento que a concebe. Ela será, inevitavelmente, a expressão concreta de como se aprende a habitar não apenas o mundo, mas, sobretudo, a própria mente.

*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins.