A escola filosófica do estoicismo foi reificada nos tempos mais recentes como uma forma de suportar o caos do mundo. Muitos manuais de autoajuda trazem célebres sentenças proverbiais de Marco Aurélio, de Epicteto, de Sêneca, entre outros pensadores antigos, mescladas com um confronto resignado da vida (um tipo de paradoxo contemporâneo). O encaixe é simplesmente “perfeito”. Os retalhos deixados da sobra do discurso cristão são costurados às necessidades diárias de um comodismo fundamentado em uma busca pela imperturbabilidade, pela impassividade e imutabilidade das circunstâncias da vida.
Importa destacar que o estoicismo, em sua gênese, é uma compreensão de mundo bastante pertinente às experiências de qualquer pessoa, de modo que desejar uma vida tranquila e serena por meio de práticas simples de abstenção e de disciplina interna não é nada estranho a quem quer que seja, ao contrário, é muito frequentemente encontrado em sujeitos maduros com larga experiência e reflexão. Todavia, não se pode negar que o atual individualismo, para além de seus aspectos sociológicos e econômicos, possui uma vinculação contingencial com o estoicismo e seu estilo de vida. A vida contemporânea exige uma disposição para um conjunto de atuações diversas e fundamentalmente desgastantes, das interações no âmbito do trabalho ao mundo competitivo e ilusionista das redes sociais, passando pelas relações familiares, que antigamente era um tanto quanto restrita. Nesse direcionamento, deixar de lado os conflitos, os combates necessários e os desconfortos passou a ser uma regra tácita de convivência.
É nítido e também bastante recomendável que certas coisas sejam relevadas, mas nem sempre. Transformar uma reflexão filosófica em um regime de passividade é fundamentar o comodismo do mais do mesmo. É nessa conjuntura que grassa o reino dos maus, porque os bons, modestos e praticantes do “engole-sapo”, fazem-se de rogados. Em outras palavras, quando é hora de uma reclamação, de uma ouvidoria, de uma denúncia, o “deixa para lá” vence, pois há espantosa inclinação à ataraxia (ausência de perturbações), já que, em geral, acredita-se que quase tudo continua como está. Porém, aos bons de conduta, é imprescindível revolver as prateleiras de virtudes escondidas para trazer à tona a verdadeira vontade de mudar para melhor.
No cotidiano, é fácil observar como essa deformação do estoicismo se manifesta como um convite à inércia. No ambiente de trabalho, por exemplo, testemunhamos colegas que se calam diante de injustiças, assédios ou más práticas, justificando-se com um “é melhor não me envolver” ou “isso não me afeta diretamente”. Nas comunidades, vizinhos deixam de reclamar contra o barulho excessivo, o descumprimento de regras ou a degradação de áreas comuns, preferindo a falsa paz de um silêncio cúmplice. Até nas relações pessoais, amigos e familiares optam por ignorar desrespeitos, manipulações ou abusos emocionais, em nome de uma suposta “serenidade” que, na verdade, nada mais é que medo disfarçado de virtude.
Essa dinâmica cria um terreno fértil para que os maus, aqueles que agem com má-fé, egoísmo ou desprezo pelo coletivo, prosperem sem oposição. Os bons, muitas vezes vistos como “pacientes” ou “equilibrados”, tornam-se, sem perceber, cúmplices de um sistema que premia a audácia dos irresponsáveis. A ataraxia mal compreendida transforma-se em apatia, e a busca pela imperturbabilidade converte-se em omissão. Enquanto isso, pequenas corrupções, desleixos e injustiças se acumulam, normalizando-se até parecerem parte inevitável da paisagem.
Não se pode, portanto, deixar seduzir por um estoicismo fácil, que troca a resistência moral pelo conforto da resignação. O verdadeiro estoicismo nunca foi sinônimo de passividade perante o erro ou a opressão; era, sim, uma prática de discernimento entre o que se pode e o que não se pode controlar e, a partir daí, uma escolha consciente e corajosa de agir onde é possível. Ceder ao comodismo fundamentado é trair a própria essência da filosofia que se pretende seguir. É preciso, então, despertar do sono tranquilo da indiferença e reassumir o lugar de quem não apenas pensa, mas age, pois só assim se constrói um mundo menos cômodo para os maus, e mais justo para todos.
*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

