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Opinião

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

A condição humana, em seu intrincado labirinto social, com frequência enfrenta uma verdade perturbadora: a dificuldade em sustentar a harmonia quando a competição e a rivalidade permeiam os laços coletivos. O filósofo francês René Girard, com acuidade antropológica, compreendeu um mecanismo arcaico e persistentemente atual que resolve temporariamente essas crises: a teoria do bode expiatório. Seu pensamento ilumina não meramente um fenômeno social, antes o faz com a própria fundação violenta do sagrado e da cultura.

Girard postula que o desejo humano é essencialmente mimético. Não anelamos objetos por seu valor intrínseco e, sim, porque os vemos desejados por um outro, que serve de modelo. Essa mimese, contudo, gera rivalidade crescente, uma “crise mimética”, na qual os indivíduos, desejando a mesma coisa, tornam-se espelhos antagonistas. A comunidade, então, caminha para um conflito generalizado, uma guerra de “todos contra todos” (nos dizeres de Hobbes) que ameaça dissolver a ordem social.

Para escapar desse abismo, surge uma solução paradoxal e agressiva: a unificação contra um inimigo comum. A multidão, em estado de fervor e medo, converge sua hostilidade difusa sobre uma vítima singular ou um grupo específico. Este escolhido, o bode expiatório, é arbitrariamente carregado com as culpas, tensões e males da comunidade. Sua acusação não requer lógica forense; basta que apresente algum sinal de diferença, real ou imaginada: uma etnia distinta, uma fé heterodoxa, uma condição social marginal ou simplesmente uma vulnerabilidade perceptível. O sacrifício ritual ou simbólico dessa vítima, real ou metafórico, produz um alívio catártico no circuito coletivo. A paz, fruto de um unanimismo intenso, restaura-se momentaneamente. Girard identifica neste processo a gênese do sagrado: a vítima, primeiramente execrada, pode posteriormente ser venerada como divindade pacificadora, pois sua eliminação trouxe a concórdia. Os anais da humanidade ratificam tal tese.

A história oferece tragédias incontáveis que personificam essa mecânica perversa. Durante a “Peste Bubônica” na Europa medieval, as comunidades, aterrorizadas por um mal incompreensível, canalizaram seu pânico para a perseguição de judeus, acusados de envenenar poços. A diferença religiosa e cultural bastou como “prova” de sua culpabilidade. No célebre “Caso Dreyfus”, o capitão francês Alfred Dreyfus tornou-se o depósito do nacionalismo ferido e do antissemitismo latente de uma nação em crise. Em regimes totalitários, a figura do “inimigo do povo”, seja o burguês, o intelectual, o estrangeiro, opera como um bode expiatório permanente, tal como explica Girard, mantendo a coesão pelo ódio direcionado.

No cotidiano, o mecanismo mostra-se menos dramático, porém, não menos eficaz. No ambiente corporativo, um funcionário pode ser vilipendiado e demitido como responsável pelo fracasso de um projeto, aliviando a pressão sobre falhas sistêmicas ou rivalidades entre departamentos. Nos círculos sociais, um indivíduo torna-se o alvo de fofocas e exclusão, unindo o grupo através de sua condenação tácita. Nas redes digitais, a “cultura do cancelamento” frequentemente degenera em caças às bruxas modernas, na qual uma pessoa é ritualmente expurgada do convívio virtual para expiar as ansiedades e os rancores da tribo online.

Contudo, a reflexão mais inquietante reside na possibilidade de nossa própria cumplicidade, consciente ou não. O leitor, em momentos de frustração íntima, já não projetou sobre um colega, um familiar ou um grupo anônimo a culpa por um mal-estar de origem complexa? No trânsito tumultuado, o xingamento ao outro motorista serve de válvula para a irritação acumulada do dia. Na política, a adesão cega a narrativas que reduzem problemas multifacetados à simples malevolência de um partido ou classe é manifestação do mesmo impulso arcaico. Por outro lado, o leitor já não se sentiu, talvez, na pele do eleito para a expiação? Sendo alvo de críticas desproporcionais, de um olhar coletivo que convergia para si uma culpa que não lhe cabia, transformado em objeto de um consenso acusatório?

Reconhecer a sombra do bode expiatório é, portanto, um exercício de humildade e vigilância ética. Implica desconfiar das unanimidades fabricadas pelo ódio, questionar a narrativa conveniente que identifica um único culpado para males coletivos e, sobretudo, examinar o próprio “coração”. Pois a violência fundadora, como elucida Girard, não é um acidente da civilização, mas sua origem secreta. Romper seu ciclo exige coragem para habitar a ambiguidade, para sustentar a tensão da discordância sem buscar, na frágil e efêmera paz do linchamento simbólico, um alívio ilusório. Afinal, no teatro social, cada um de nós pode, alternadamente, vestir a máscara do acusador, a coroa de espinhos do acusado, ou o manto cúmplice da plateia que, em silêncio, consente.

*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).